Às vezes, gosto de imaginar que sou uma ilha. Fico parada, cercada de silêncio, esperando pelo tudo e pelo nada. Uma ilha deserta, dessas que as pessoas gostam de imaginar o que levariam, caso fosse a uma. Vivendo dias de tempestade, conversando comigo mesma e até reclamando de algumas coisas. Sentindo falta de companhia, mas conformada com a situação. Cantarolando para dentro, pensando e vendo os dias passarem, ouvindo o som do silêncio... Talvez, no final das contas, eu não seja tão diferente assim de uma ilha. Pessoas têm andado sozinhas. Vivemos em um planeta habitado por ilhas.
O que será que as pessoas trariam, caso viessem até mim?
O sol entrou pela janela e a sensação de manhã invadiu o quarto, hora de acordar. Ainda me restam alguns minutos e não preciso ter pressa. Deito a cabeça novamente no travesseiro e ouço. A música veio dizer bom dia.
...aí, eu lembro de tudo que já aconteceu, lembro pelo que já passei e pelo que eu ainda passo por vezes. Imagino o mundo que criei como um refúgio nos momentos de dor. Mesmo que eu desperte do meu transe necessário e caia de cara na realidade, lembro que tenho uma câmera com a qual eu posso moldar o mundo em que vivo e transformá-lo nesse mundinho perfeito. Lembro também que tenho e sempre terei a música como companheira e que não importa o que eu faça ou diga, ela nunca me abandonará. E é no conforto desse mundo imaginário que tento sobreviver. É onde estou agora.
Olhando uma borboletinha que passou por mim, reparando na sua delicadeza e na vivacidade de suas cores, percebi que borboletas são flores que aprenderam a voar. Quando elas pousam em outras flores, é porque estão ensinando a elas o segredo do voo.
O frio está vindo junto com a noite. Percebo uma neblina discreta pairando e o vento avisa que está chegando. O horizonte acima do lago ficou dividido em quatro cores: cinza na parte próxima ao chão, vermelho clarinho, branco e azul. Em meio a esse arco-íris de quatro cores, consigo ver uma nuvem comprida que tem como companhia duas nuvenzinhas menores, uma de cada lado. O dia acabou.
O céu acordou de mau humor e o Sol resolveu tentar mudar isso, deu o ar da graça, com graça. Foi chegando com calma. Clareou um pouco aqui, um pouco ali. Jogou raiozinhos em várias direções até que o céu, enfim, desistiu de tentar.
Gosto de conversar com a Meg e com a Agata. Vivo pagando por minha indecisão, então decidi não decidir mais nada. Brinco de tirar fotos, mas minha câmera anda meio cansada, tadinha. Não como carne, não gosto de pensar que no meu prato tem pedaços de um bichinho que foi morto sem chances de defesa, deixando esposa e filhos ou, no caso das galinhas, marido e filhos.
Você jamais conseguirá entender uma música se não senti-la ao invés de simplesmente ouvi-la. Uma música de verdade não é feita apenas para os ouvidos, é feita para a alma.